Filas nos caixas eletrônicos voltam a crescer no Centro do Rio
Entre o fim do expediente e o começo da noite, a procura por saques dobra em pontos do Centro e da Zona Sul. O dinheiro vivo, que muitos apressaram-se a enterrar, segue firme na rotina carioca — e a fila do caixa virou termômetro informal da economia da cidade.
São seis e meia da tarde numa terça-feira comum e a cena se repete em frente ao quiosque de autoatendimento perto do Largo da Carioca: sete pessoas na fila, celular numa mão, paciência na outra. Meia hora antes, eram três. Meia hora depois, serão dez. Quem observa a orla iluminada, os letreiros acesos e a cidade ligando suas luzes pode achar que é só mais um fim de dia — mas a fila do caixa eletrônico tem contado uma história que os aplicativos de pagamento não contam.
Levantamento feito pela reportagem ao longo de duas semanas, em oito pontos de grande circulação no Centro, em Copacabana e na Tijuca, registrou aumento consistente do movimento nos terminais entre 17h e 20h. Em média, a fila do início da noite tem o dobro do tamanho da fila do meio da tarde. Funcionários de empresas de transporte de valores, que abastecem os terminais, confirmam a percepção: a reposição de cédulas em pontos do Centro foi reforçada desde o outono.
O dinheiro que não morreu
A explicação, dizem economistas ouvidos pelo Pulso Carioca, é menos nostálgica do que parece. O pagamento instantâneo dominou as compras do dia a dia, mas três universos seguem movidos a cédula: o pequeno comércio informal, parte do transporte alternativo e a economia da noite — bares de calçada, ambulantes, feiras, bicas de pagamento rápido onde a maquininha ainda não chegou ou não compensa.
"O carioca não abandonou o dinheiro. Ele s só passou a sacar com hora marcada: no fim do expediente, antes do bar, antes do busão. A fila das seis é a fila de quem vai viver a noite da cidade."
A avaliação é de um pesquisador de economia urbana da UFRJ que acompanha meios de pagamento desde 2019. Segundo ele, o padrão de saque noturno cresceu junto com a retomada da economia de rua — e é um dos sinais mais confiáveis dela, porque ninguém saca dinheiro que não pretende gastar.
Menos terminais, mais fila
Há também um fator de oferta: a rede de caixas encolheu. Bancos vêm reduzindo terminais próprios e migrando para redes compartilhadas; agências fecharam ou viraram "espaços de atendimento" sem numerário. Resultado: os terminais que restaram concentram a demanda de vários quarteirões. No Centro, três pontos consultados pela reportagem absorveram o movimento de agências desativadas num raio de quinhentos metros.
Para o usuário, a conta é simples: mais gente, menos máquina, fila maior. Para os bancos, consultados por e-mail, a rede "está dimensionada para a demanda" e o cliente "dispõe de canais digitais para a maioria das operações". Nenhum dos quatro maiores respondeu à pergunta sobre planos de reforço de terminais em áreas de grande circulação noturna.
Fila como termômetro
Enquanto isso, a fila segue prestando seu serviço involuntário de indicador econômico. Comerciantes da Rua da Alfândega dizem saber "como vai ser a semana" só de olhar o movimento do caixa da esquina na segunda à noite. Um deles, dono de uma lanchonete que aceita "tudo, menos cheque", resume com a precisão de quem vê a cidade passar todos os dias diante do balcão: "Fila no caixa é gente com plano para o dinheiro. Cidade parada é caixa vazio."
Atualização (24/07): incluída resposta da federação dos bancos recebida após a publicação, informando que a rede compartilhada de autoatendimento registrou aumento de 9% no volume de saques no estado do Rio no primeiro semestre.